quinta-feira, novembro 30, 2006

O nihilismo num exemplo prático

Os poucos visitantes deste blog indagar-se-ão, certamente, acerca da natureza das minhas ausências cada vez mais longas. Eu posso satisfazer essa natural curiosidade, arguindo que tenho andado muito atarefado tanto com os estudos, como com o lançamento do livro (ver o post anterior). Contudo, há situações como aquela que me foi comunicada hoje que colocam em mim uma dúvida existencial, ou mesmo metafísica: valerá a pena lutarmos pela felicidade?
Contexto: aula sobre Lupus Eritematoso Sistémico. Uma doença dramática, cujos sintomas podem ser praticamente inexistentes (um rash cutâneo discóide ou malar, ou uma fadiga que parece não se dissipar) ou muito graves (trombocitopénias - diminuição do número de plaquetas - gravíssimas, com acidentes hemorrágicos extensos, devido à existência de anticorpos circulantes que atacam o DNA do próprio corpo - é esta presença de anticorpos que caracteriza, no fundo, a doença).
História: Uma jovem de 22 anos. Pouco mais velha do que eu, portanto, com toda uma vida pela frente. Talvez estivesse a concluir um curso superior. Talvez estivesse a iniciar a sua vida profissional. Talvez tivesse já um relacionamento estável. Talvez estivesse já no auge da sua felicidade ou, alternativamente, talvez a estivesse a atingir paulatinamente. Ou talvez não tivesse nada disso e mantivesse todas as perspectivas de vida em aberto, como se fosse uma flor à espera de despontar para a vida em todo o seu esplendor, espalhando os seus grãos de felicidade ao sabor do vento como se de pólen se tratassem.
Era aparentemente saudável, exceptuando alguma tendência para infecções e para a ocorrência de hemorragias que não estancavam facilmente, quando se cortava acidentalmente. Nada de sério. Certo dia, ao se dirigir à casa de uma amiga, pôs-se a brincar com o gatinho bebé que também lá vivia. Os gatinhos bebés, de três meses ou pouco mais, são criaturas que têm tanto de fofo como de irrequieto e selvagem, pelo que não foi de estranhar que, a certa altura, ele se tenha lembrado de dar uma impetuosa dentada àquela rapariga visitante. O local que recebeu a mordedura sangrou, e essa ferida demorou a estancar, mas parecia ter ficado tudo bem.
Dias depois, ela começou a ter febre elevada e a sentir um mau estar geral. Dirigiu-se ao hospital, fizeram-lhe análises e detectaram-lhe uma pancitopénia (diminuição do número de todos os tipos celulares sanguíneos) acentuada. Alarmados, internaram a rapariga e medicaram-na com antibióticos, aparentemente, adequados. Mas o organismo reagiu mal. A rapariga começou a apresentar um rash cutâneo por todo o corpo, a ter problemas renais e cardíacos, bem como um quadro neurológico que apontava para uma psicose de instalação súbita. Análises mais detalhadas não enganaram - ela tinha um Lupus Eritematoso Sistémico que entrara em actividade concomitantemente a uma infecção. Situação grave, muito grave.
Só na autópsia souberam que infecção era - no local da mordidela do gato, surgira um quisto formado por bactérias da espécie Pasteurella multocida, microrganismos da flora comensal do gato que, normalmente, não atacam um ser humano caso ele seja imunocompetente. Mas esta jovem teve o azar de desenvolver Lupus activo ao mesmo tempo que recebeu a bactéria...
22 anos. Toda uma vida pela frente. E morreu assim, por causa da dentada brincalhona e inocente de um gatinho bebé. Valeu-lhe de muito começar a construir a sua felicidade!
Sabem que mais?:
A vida é injusta. A vida é uma merda.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Lançamento do meu livro


Neste momento, as datas dos eventos relativos à apresentação e divulgação do meu novo romance já estão, para minha felicidade, delineadas!
1º - Dia 7 de Dezembro, sessão de divulgação e autógrafos na Sala Multiusos da Faculdade de Medicina de Lisboa, entre as 17h (ou um pouco antes) e as 19h. Entra-se no recinto do Hospital de Santa Maria, segue-se em direcção à grande estátua do Egas Moniz que está no centro, em frente ao hospital (atrás do heliporto), descem-se as escadas que levam à entrada principal da Faculdade de Medicina de Lisboa, passa-se a porta e é logo a primeira porta à esquerda, nesse hall de entrada!
2º - Dia 8 de Dezembro (o feriado!), sessão de apresentação na Sala da Assembleia da Junta de Freguesia de São João da Talha, a partir das 16h30. Para quem não conhece a vila, fica 4km a norte de Sacavém (na zona do Parque das Nações), é fácil chegar-se a S.João pela Nacional 10, a partir de Sacavém. A sala é num edifício branco, recente, no centro da vila, ao pé de uma Escola Primária e do café "O Daniel", ao cimo da rampa.
3º - Dia 10 de Dezembro, na FIL, junto ao stand da associação "Nós", onde estará uma banca da IRanimA - estarei aí a dar autógrafos entre as 17h e as 18h!
Conto contigo!

sexta-feira, novembro 24, 2006

There can be only one ...

Depois de dois dias de ausência, regresso hoje, dia 24 de Novembro de 2006, para assinalar uma efeméride:

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Faz hoje 15 anos que Farrokh Bomi Bulsara, mais conhecido no mundo da música como Freddie Mercury, faleceu, vítima de uma complicação decorrente da imunossupressão causada pelo HIV.

Esta é a minha singela forma de prestar homenagem a um dos maiores ícones musicais de todos os tempos. Obrigado pela música, pelo carisma, pela voz, por tudo. As tuas composições fizeram-me (e fazem-me) feliz em muitas ocasiões em que parecia (ou pareço) estar a mergulhar numa depressão.

Deixo aqui um videoclip de uma maravilhosa canção do Freddie a solo, 'In My Defence'


In my defence, what is there to say?
All the mistakes we made must be faced today...
Infelizmente para todos os que te admiravam e, principalmente, para ti mesmo, encaraste os teus erros da pior forma. E, em tua defesa, não sobrou nada para se dizer. Quão cruel pode ser a vida... Descansa em paz.

terça-feira, novembro 21, 2006

Eu já descobri o poder da Letra F !

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Join "Movimento Letra F". O verdadeiro caminho para a felicidade!

(para mais informações, consultar este post )

Sabiam que... (ensaio poliglota)

...

la felicità non conosce idiomi

das Glück kennt keine Idiome

η ευτυχία δεν γνωρίζει ιδιωματισμούς

счастье не знает никакие языки

?

Este post vem na sequência deste, só tendo sido possível concretizá-lo graças ao tradutor Altavista Babelfish - tornando-nos mais poliglotas e felizes a cada dia!

3ª feira acidentada (...)

Hoje, a 2ª circular estava particularmente caótica. Demorámos (porque seguia no carro com o meu pai) cerca de uma hora a fazer o percurso entre as antigas portagens de Sacavém e as bombas da Galp - e isto, para quem não conhece, é pouco mais de 1,5 km de percurso. Cheguei à faculdade com uma hora e meia de atraso. Perdido por cem, perdido por mil - não me prejudicará mais investir uma meia-hora em navegação pelo mundo encantado da Internet!
No carro, nós já bufávamos. Se fôssemos uma panela de pressão, teríamos rebentado. E as notícias do trânsito narravam a situação: "acidente por resolver em Benfica, há um contentor de um camião a bloquear duas faixas de rodagem, já se encontra uma grua no local em manobras. Fila desde Vialonga até Benfica (e isto são uns bons 20km de fila)". Estava explicado. No carro, bufámos um pouco mais. Se fôssemos uma panela de pressão, já teríamos rebentado duas vezes. A rádio anunciou: "e agora um momento musical, com os Supertramp, The Logical Song"


No meio daquela coluna compacta e amorfa de automóveis que era a 2ª circular, o meu pai parou de bufar e começou a assobiar a melodia desta canção. Quando o solo de saxofone entrou, foi a minha vez de mexer os dedos como se fosse eu o saxofonista (John Helliwell, é o nome do senhor em questão), como se estivesse a criar aquela melodia, como se estivesse a tentar, através do poder das notas musicais, diluir a manhã de 3º feira e encontrar um hiato através do qual pudesse penetrar com o carro. Mas o carro mal se mexeu enquanto a música se fez soar no nosso rádio, enquanto a música rezou o seguinte:

"And all the birds in the trees, they'd be singing so happily, joyfully, oh, playfully, watching me!"

Por uns minutos, fomos os pássaros das árvores, a cantar com alegria e felicidade, observando o trânsito imutável e caótico. Só que os pássaros felizes não conhecem o automóvel nem o engarrafamento. Se calhar é por isso mesmo que são felizes e cantam enquanto me observam. Ah, como gostava de ser um pássaro e voar daqui para fora, de mim para fora!

segunda-feira, novembro 20, 2006

Os três amigos felizes

Conversa improvável num pardacento e decrépito corredor do Hospital de Santa Maria. Ele chega-se ao pé de mim, com um semblante carregado e uma voz titubeante, e segreda-me algo que me abala profundamente:

- Sabes, a existência do teu blog já não faz sentido.
- O quê!? Porque dizes tal heresia?
- Já não precisas de descobrir o caminho para a felicidade porque eu descobri a chave para ela.
- Como!?
- Passo a explicar: eu tenho três amigos felizes. Só três. Mas são felizes a valer.
- Como sabes se são mesmo felizes?
- Sei-o, simplesmente. Mas deixa-me falar. Um é o Francisco, enverga sempre um fato e nunca se cala. Outro é o Filipe, veste invariavelmente uma camisa de flanela com um bolso no lado esquerdo, onde guarda sempre um maço de tabaco. O último é o Fábio, cuja indumentária é similar à do Filipe e que transporta sempre uma caixa de preservativos no bolso da camisa.
- E de que forma é que isso te dá a chave para a felicidade?
- Simples. A chave reside na letra F, a mesma que mora no início da Felicidade. Ora vê:
* Os meus três amigos são felizes;
* O Francisco usa um fato, os outros vestem camisas de flanela;
* O Francisco fala compulsivamente;
* O Filipe fuma,
* e o Fábio ... que se farta!

(foi desta que o blog atingiu o seu nível mais baixo...)
(...e parece que nunca vou ser feliz, não tenho qualquer F no meu nome... :( )

sábado, novembro 18, 2006

100 visitas!

O blog atingiu um marco histórico - o das 100 visitas! This calls for a toast!

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Não, não é uma dessas "toasts", é toast no sentido de brinde (e dizem eles que a língua portuguesa é que é traiçoeira!)

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Ah, assim está melhor (que figuras tristes fazia há dois anos atrás...)! Mas não encham muito os copos, porque sensivelmente metade das visitas registadas devem ser minhas...

...e, agora que penso nisso, este feito não é motivo para ficar feliz! Damn! :(

sexta-feira, novembro 17, 2006

Quando "ligeiramente" é eufemismo para "substancialmente" ...

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O que será ?

Normalmente, os textos aqui colocados são da minha autoria (fora a quadra do Manuel Alegre e a citação do Gandhi, em posts anteriores). Vou agora abrir uma excepção sob a forma de um vídeo relativo a uma música, cuja letra é como que uma adivinha...

Canção: O que será? (à flor da pele)
Letra e música: Chico Buarque
Intérpretes: Chico Buarque e Milton Nascimento

Eu queria seleccionar apenas alguns versos, mas a letra é tão sublime que tem que ficar aqui registada integralmente, desculpem:


O que será que me dá,
Que me bole por dentro, será que me dá?
Que brota à flor da pele, será que me dá?
E que me sobe às faces e me faz corar,
E que me salta aos olhos a me atraiçoar,
E que me aperta o peito e me faz confessar
?
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar,
E que me faz mendigo, me faz suplicar?
O que não tem medida, nem nunca terá;
O que não tem remédio, nem nunca terá;
O que não tem receita!

O que será, que será,
Que dá dentro da gente e que não devia?
Que desacata a gente, que é revelia?
Que é feito uma aguardente que não sacia?
Que é feito estar doente de uma folia?
Que nem dez mandamentos vão conciliar,
Nem todos os unguentos vão aliviar,
Nem todos os quebrantos, toda alquimia,
Que nem todos os santos, será que será?
O que não tem descanso, nem nunca terá,
O que não tem cansaço, nem nunca terá,
O que não tem limite!

O que será que me dá,
Que me queima por dentro, será que será?
Que me perturba o sono, será que me dá?
Que todos os tremores me vêm agitar,
Que todos os ardores me vêm atiçar,
Que todos os suores me vêm encharcar,
Que todos os meus nervos estão a rogar,
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar?
O que não tem vergonha, nem nunca terá,
O que não tem governo, nem nunca terá,
O que não tem juízo!


O que será o sentimento de que a canção fala e que é, usualmente, uma das mais maravilhosas formas de se encontrar a felicidade?...

quinta-feira, novembro 16, 2006

Hoje havia seminário de ...

Hoje havia seminário de... qualquer coisa. Já não sei a quantas ando. Isto é mau, e já estou mesmo a ver o filme: a uma semana do exame, desato a estudar como se não houvesse amanhã e fico, uma vez mais, com a matéria colada a cuspo e prontinha a ser debitada, mediante um discurso entrecortado e receoso, no exame oral. E provavelmente serei aprovado, com uma nota no limiar da positiva.
Hoje havia seminário de... qualquer coisa. Talvez nunca venha a saber sobre que matéria incidiu este seminário a que me baldei, pois terei certamente vergonha de chegar ao pé de um colega meu e de lhe colocar esta pergunta, com um ar inocente: "desculpa, voltei a faltar ao seminário, foi sobre o quê mesmo?"
Hoje havia seminário de... qualquer coisa. E estive quase para ir assistir. Só que, ao entrar no hall que precede o anfiteatro de Medicina I, onde os seminários do meu grupo têm lugar, constatei que havia um pequeno ajuntamento de colegas meus próximo da secretária onde costuma estar aquela folhinha na qual é suposto registarmos a nossa presença através de uma rubrica. Acerquei-me, até porque um ajuntamento gera sempre curiosidade. E lá estava ela, a folhinha mágica. Um pensamento comodista bateu à porta do meu consciente. Deixei-o entrar. Ele trouxe a imagem de um merecido descanso após uma manhã chata na enfermaria, decorada com biscoitos, uma televisão e um computador. Eu fiquei enfeitiçado, e tudo o que teria que fazer para alcançar tal paraíso de marasmo era assinar o meu nome e pirar-me dali para fora. E foi isso mesmo que fiz, com um sorriso malicioso estampado na minha face, como se fosse um miúdo que acabara de descobrir a doce sensação de cometer um pequeno e inofensivo delito e de sair dele impune e, acima de tudo, feliz.
Hoje havia seminário de... qualquer coisa. Mas hoje, eu fui o miúdo crescido que assinou a folha de presenças e se foi embora com um sorriso na cara, como se tivesse acabado de roubar um chupa-chupa ou uma saqueta de cromos da Panini, e como se isso me tivesse feito muito feliz...
...o problema é que, muitas vezes, esse sorriso de felicidade desvanece-se quando se constata que se roubou aquele sabor de chupa-chupa que se detesta, ou que todos os cromos daquela saqueta desviada são repetidos...

Allegro. Ma non troppo.

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Manhã de um dia útil por inventar. Lá em cima há um sol ou uma nuvem, um bulício caótico ou uma modorra infinita, uma vida ou uma morte. Que interessa? No metro não há nada disso. Há apenas uma carruagem apinhada e monocromática, a despeito das milhares de cores envergadas pelos milhares de transeuntes que, por mais refulgentes que sejam, não conseguem emprestar os seus matizes policromáticos ao profundo e dantesco negrume do dia. E há outra carruagem. E mais outra. E ainda outra. E nelas, mil e uma pessoas e três, quatro ou cinco mil e uma faces, porque uma pessoa não tem só uma face e é caso raro aquele de uma criatura humana que apenas ostente duas. Pessoas entram e saem de estações tendencialmente coloridas com sorrisos gradativamente cinzentos à medida que a hora de picar o ponto se aproxima. Pessoas atropelam-se. Pessoas digladiam-se. Pessoas correm, correm, correm...
O homem do acordeão não percebe o porquê disso. Talvez um dia já tenha percebido, mas desde que começou a fazer soar a sua triste melodia na carruagem 321, aquela que passa sempre às 8:37 na estação do Campo Grande, esqueceu o porquê daquela vida que corre todas as manhãs perante ele, perante as suas cantigas e as suas infelicidades. Allegro ma non troppo, parece ser esse o tempo do movimento daquela sinfonia antropizada, de compasso marcado por duas mil e uma pernas que não param, sinfonia do quotidiano, sinfonia sublime e medonha que algum compositor se esqueceu de anotar numa cinzenta e apressada pauta musical. Aquelas pessoas sem cor que envergam vestimentas coloridas desmultiplicam-se em colcheias e semicolcheias, sem pausas, com compasso individualmente definido e colectivamente anárquico, pelo menos em aparência. Não há tempo para mínimas ou semínimas, porque essas são notas musicais demasiado lentas e arrastadas para quem tem um passo tão ligeiro e fugaz. Mas o acordeonista insiste em fazer soar a sua ladainha carregada de semibreves e pausas, preenchida por erros, Adagio molto, num perpétuo e pungente movimento de braços e dedos que é apenas interrompido pelo tinido metálico de uma moeda de cobre a cair no copo de plástico que repousa aos seus pés, ao qual ele responde com um silêncio breve e um respeitoso, formal e mecânico inclinar de cabeça para a frente. E, após esse momento de reconhecimento monetário pela banda sonora daquela manhã que algum passageiro realizou com um esgar de repulsa e enfado, o movimento da canção acelera um pouco: é agora Andante, saltita ao ritmo dos solavancos da carruagem e, nos ouvidos de quem segue sentado, imiscui-se indissociavelmente com o soar de mil e uma vozes sem dono que preenchem e dão conteúdo ao comboio subterrâneo.
Acontece, por puro acaso, que uma das sombras sentadas se ergue subitamente ao fim de uma canção e se dirige paulatinamente para o acordeonista. Esse, habituado a desconfiar da presença e da aproximação das pessoas, - porque ele já não se considera mais uma pessoa e porque ninguém se aproxima dele, excepto de forma fugaz e amedrontada - engana-se no compasso da música seguinte, troca o tempo, em cinco segundos vai do pacato Andante ao atrevido Vivace que os seus dedos nunca ousam tentar. Erra, finalmente, as notas. Mas a sombra feminina que se acercou entretanto dele devolve-lhe um sorriso, coloca uma moeda de dois euros no copo de plástico e diz-lhe, num tom de voz afável e comovido que não conseguiu apagar da sua face enrugada duas tímidas lágrimas:
"Agradeço-lhe por ter tocado a melodia da minha vida. Fez-me feliz."
O acordeonista não disse uma palavra: limitou-se a responder com um sorriso sincero e resplandecente, o que não seria revelador de um sentimento de gratidão excepcional, não fosse esse o seu primeiro sorriso genuíno em anos de mendicidade. Interrompeu aquele concerto que ninguém pedira, que incomodava muita gente e ao qual poucas pessoas retribuíam com uma moeda. Parou para olhar em volta, reparou pela primeira vez nas mil e uma faces da humanidade e constatou, por entre uma lágrima que foi como uma dádiva para a sua face ressequida e suja, que algumas dessas faces resplandecem de reconhecimento, de alegria, de felicidade, de compaixão. Pena que as faces negativas as soterrem e as atolem de hipocrisia, cinismo, máscaras de indiferença, vil racionalidade.
O tempo do movimento daquela sinfonia popular que o acordeonista agora entoa é Allegro, ma non troppo. É o tempo da vida. E faz sentido que assim o seja, porque num fugidio momento, o homem do acordeão sentiu-se, pela primeira vez, incluído nesse livro interminável e insondável que é o da vida. É também o tempo da felicidade, esse movimento áureo e de plenitude que ele agora acredita ser possível desvendar, atingir, folhear, ler como se de uma pauta musical se tratasse e converter em melodia divinal. Uma melodia que não se quer em Adagio nem em Prestissimo, mas sim em Allegro. Ma non troppo.
O metro chegou ao seu destino final. O acordeonista sai, carregando consigo o pesado e velho acordeão que fora do seu bisavô e o doce peso de uma nova e inebriante novidade, a descoberta de que, por entre movimentos incessantes, perpétuos e carregados de indiferença, é possível encontrar-se o movimento da felicidade. Num tempo Allegro. Ma non troppo.

quarta-feira, novembro 15, 2006

...e feliz se fez triste!

Todas as palavras já foram encontradas. Todos os sonetos já foram escritos. Todos os sentimentos já foram deslindados. Basta procurar com afinco e, algures, no fundo de um baú poeirento ou na copa de uma frondosa árvore, encontraremos certamente algo que defina e descreva o nosso dia, a nossa vida, a nossa (in)felicidade.

O dia de hoje, por exemplo, é a cara da primeira quadra de um soneto de Manuel Alegre.


Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto;
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno Agosto.


Faça-se uma subtil cirurgia plástica a esta quadra (ou a esta cara de mais um dia) e obtenha-se assim um retrato fiel do que está a ser o 15 de Novembro de 2006:


- mude-se "madrugada" por "manhã" (porque a manhã foi clara e primaveril);
- mude-se "alegre" por "feliz" (porque o tema aqui é a felicidade e não a alegria);
- mude-se "pleno Agosto" por "Novembro" (porque estamos em Novembro).

(tudo isto porque lá fora chove. E cá dentro, no meu âmago mais amargo e íntimo, também. A cântaros. E não há nada como a chuva para encharcar vilmente uma felicidade que se quer enxuta e soalheira...)

terça-feira, novembro 14, 2006

Aforisma terceiro - Para quê aforismas?

A felicidade não se explica através de alegorias, aforismas, teorias, máximas, analogias, imagens, odores, sensações ou ideias per se. A felicidade é tudo isto e não é nada disto. A felicidade é indizível. A felicidade é una. A felicidade é ela mesma, é felicidade e nada mais.

Abaixo os aforismas! Abaixo os pseudo-intelectuais! Abaixo este blog!

(e o blog grita baixinho - "Eu vou continuar a viver!")

20

20.

20 anos vividos.

20 infrutíferas buscas.

20 caminhos trilhados.

20 insondáveis trilhos.

20 imperscrutáveis respostas.

20 famintas interrogações.

20 perguntas afoitas.

20 posts registados.

20 dúvidas diáfanas.

20 dogmas profanos.

20 pinturas sem tela.

20 repastos sem sabor.

20 felicidades por nascer.

20 felicidades por encontrar.

20 felicidades por inventar.

20 nascidas, encontradas e inventadas felicidades.

(faltam) 20 minutos para as 19:00.

(há) 20 linhas neste post.

20...

Aforisma segundo - O caminho é uma rampa

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Sim, porque a felicidade está no topo de um caminho ascendente e contínuo, no qual enveredamos irremediavelmente desde que nascemos.
E porquê esta analogia? Porque a busca pela felicidade é um processo contínuo em que entramos no momento do nosso nascimento e que realizamos inconscientemente a cada instante, a cada respirar, a cada passo titubeante em direcção ao desconhecido. E, tal como acontece numa rampa muito inclinada, se um vento forte e adverso soprar na nossa direcção, é possível que nos desequilibremos e que rolemos inexoravelmente rampa abaixo até ao ponto de partida, caso ainda não tenhamos noções de equilíbrio. Aí, é necessário reequilibrarmo-nos prontamente, adquirir novamente a posição erecta e retomar a marcha com mais ânimo do que anteriormente - porque se há algo que os ventos adversos nos podem conceder, é a experiência e a força para enfrentarmos uma realidade potencialmente má: esse vento que inicialmente nos derruba e nos incita a fechar os olhos, acaba, em última instância, por nos ensinar a abri-los perante as vicissitudes da vida.
É preciso rolarmos algumas vezes rampa abaixo para que aprendamos a erguer-nos (cada vez com menos mazelas) e a subi-la, porque só assim será possível atingir-se aquela Felicidade que nos parece fugir invariavelmente. Mas a rampa não é infinita, e o seu topo está à distância de mais uns passos, de mais uns ventos adversos, de mais umas brisas favoráveis, de mais um esforço, de mais um cair e levantar do chão...

Aforisma primeiro - O caminho é uma escadaria

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Sim, porque a nossa ascenção até ao último patamar - o da felicidade - se faz por etapas, não é algo contínuo, há impasses, indecisões, avanços e recuos, até porque a vida não é estática e, consequentemente, a felicidade também não o é.

A cada nova realização positiva subimos mais um degrau na escadaria da nossa vida, atingindo patamares sucessivamente mais elevados a cada passo que damos, a cada pequena felicidade que vivemos. Ocorrendo na nossa vida algo nefasto ou negativo, podem daí advir três resoluções distintas:

1 - ou descemos um degrau, voltando ao patamar anterior, a partir do qual teremos que readquirir forças para voltarmos a dar o passo perdido;

2 - ficamos no mesmo patamar, porque os ganhos positivos contrabalançam aquilo que perdemos;

3 - ou então subimos porque, por amiudadas vezes, a força destruidora de um acontecimento adverso carrega em si o vento que nos impulsiona a tomar decisões ou a fazer mudanças que, em última instância, nos colocam um degrau mais perto da Felicidade Última.

Em última análise, a Felicidade está ao nosso alcance - temos que ter energias e vontade para subirmos paulatinamente a escadaria que nos conduz a esse desígnio que, muitas vezes, parece impossível, mas que está lá, à distância de uma passada larga.

Mas não se julgue que essa felicidade está despojada de imprevistos. Nenhuma vida está salvaguardada de agressões externas, nenhuma criatura humana vive dentro de uma redoma inviolável cujo ar está preenchido por uma inebriante sensação de felicidade. O segredo está em saber-se lidar com as coisas más que ocorrem na nossa vida sem se sentir que se perdeu a felicidade que tão herculeamente se conquistou. O importante é conseguir-se imiscuír essas pequenas infelicidades na nossa Felicidade, que está mesmo ali, ao cimo da escadaria, uns passos adiante, naquele dourado e etéreo patamar...

Eu sei que sou masoquista ...

Hoje, terça-feira, dia 14 de Novembro de 2006, adicionei um contador do número de visitantes totais à coluna da direita, para saber quantas pessoas visitam este humilde cantinho de felicidade (ou de falta dela).

No fundo, o contador só vai servir para me fazer sentir infeliz, pois vou constatar que quase ninguém vem aqui...

segunda-feira, novembro 13, 2006

Sabiam que... / Sabían que... / Did you know that... / Savez-vous que...

...

a felicidade não conhece línguas

la felicidad no conoce lenguas

happiness doesn't know any languages

le bonheur ne connaît pas d'idiomes

?

(...) expectativa gorada

Um pressentimento adverso que vivia em mim esta manhã tinha razão de ser - a Felicidade voltou a virar-me as costas.

Ainda a julguei ouvir a certo momento, quando um berro feminino soou: "DANIEL!". Eu virei instintivamente a cabeça para trás, na direcção de tão inesperado clamor, mas o Daniel em questão era um jovem alto e barbudo que envergava uma t-shirt azul com publicidade às drageias Smint. Desiludido, propus-me a continuar o meu percurso, mas segundos depois foi um grito com timbre masculino a chamar: "DANIEL!". Estaquei e voltei-me novamente para trás. Era para o mesmo Daniel. Raios! Malvada mania de darem nomes iguais ao meu a outras pessoas...

Moral da história: a Felicidade, quando nos chama, não tem nem voz feminina, nem voz masculina...

...e é, provavelmente, hermafrodita ou assexuada.

Expectativa (...)

Hoje vou estar com ela. Só espero não estragar tudo ao ser eu mesmo. É que a felicidade não gosta de andar de mãos dadas com apreciadores de fast-food...

13

Este é o post número 13.

Hoje é dia 13.

Vi um gato preto na rua...

...mas não é sexta-feira. Bolas, quase tive motivos para ser supersticioso hoje. Parece que não vou poder justificar a minha eventual infelicidade nesta segunda-feira de Novembro pela inexorável acção dos poderes do Oculto...

domingo, novembro 12, 2006

Mahatma Gandhi

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Este grande líder espiritual indiano que muito admiro porque não se coibiu de lutar até à exaustão pelos seus ideiais e pelo seu povo, era portador de uma mente brilhante. De entre os seus muitos ensinamentos e máximas, há a destacar uma que está intimamente ligada ao objectivo deste blog, e a partir da qual tenciono partir para uma curta dissertação:
"Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho."
Esta frase, lida e entendida em sentido literal, parece colocar em xeque todo o ideal deste blog, questionando o seu objectivo, que é o de encontrar diversos caminhos para se atingir a felicidade, sem contudo se chegar a tocar, de forma tangível e taxativa, nela. Mas se reflectirmos um pouco no que Gandhi, na sua incomensurável sapiência, afirmou, veremos que não é bem assim...
Gandhi refere-se à felicidade como sendo o caminho. Com o artigo definido "o" antes do substantivo "caminho", parece que pretende passar a ideia de que não há mais caminhos, como se o chão que nós pisamos, a luz ao fundo do túnel e o mundo que nós vemos e em que vivemos resplandecessem e transbordassem de felicidade e não houvesse outras alternativas. Eu entendo esse "o" como revelador não da felicidade como único caminho, mas sim da felicidade como sendo a estrada certa a tomar. Ou seja, esta máxima não exclui a existência de outros caminhos, pelo que não põe de parte a possibilidade de que grande número de seres humanos ande por outros trilhos que não o da felicidade. E eu incluo-me no grupo daqueles que ainda não encontraram o caminho...
Ora bem, partindo deste pressuposto, podemos encarar o mundo de, pelo menos, três perspectivas distintas:
1ª - Uma perspectiva convergente, segundo a qual iniciamos o nosso percurso vazios de ideiais e valores. É com o evoluir dos tempos e com o nosso natural e progressivo enriquecimento cultural, afectivo, familiar, social, espiritual e empírico, que vamos tendencialmente convergindo num grande rio único que é o da Felicidade, como se as nossas vidas fossem afluentes de uma grande via fluvial que todos nós almejamos;
2ª - Uma perspectiva paralela (e talvez este não seja o termo mais feliz para a descrever), segundo a qual existem vários percursos paralelos entre si, bem como paralelos ao da Felicidade, seguindo cada um de nós um caminho distinto. Há momentos nas nossas vidas em que podemos encontrar ramais que nos levam a outros trilhos, estabelecendo cada um de nós laços mais íntimos com um determinado número de pessoas dessa maneira, e outros que nos levam ao trilho da Felicidade. Pode também acontecer que, impulsionados por uma sucessão de acontecimentos e experiências positivas acumuladas ao longo de centenas ou milhares de passos, encontremos forma de saltar para esse caminho de plenitude e felicidade;
3º - Uma perspectiva de entrecruzamentos, que pode ser explicada recorrendo à analogia de um emaranhado de fios que se cruzam e entrecruzam, que se dividem e se juntam e que em muitos pontos parecem ser um só, num aparente caos do qual ninguém se parece conseguir desenvencilhar. Nesta perspectiva, o caminho da felicidade não é único, dado que todos os fios que se cruzam são potenciais "trilhos de felicidade" - a solução está em conseguirmos assumir um fio como sendo aquele que nos pertence, aquele que construímos com afinco, amor e alegria. E aí a felicidade será mesmo o nosso caminho.
Poderá haver mais maneiras de se encarar esta questão - com algum tempo, paciência e com a preciosa ingestão de mais substâncias psicotrópicas, é provável que volte a aflorar este tema e a tentar inventar mais teorias (que, como todas as teorias, e conforme Popper afirmou, serão passíveis de serem refutadas e, acrescento eu, até mesmo enxovalhadas em praça pública - let's hope not!). Até lá, olhemos com outros olhos para esta genial máxima de Gandhi, que convém dividir em dois períodos:
"Não existe um caminho para a felicidade." - Certo. Existem tantos quantas pessoas há neste mundo.
"A felicidade é o caminho." - Certo. Através da nossa busca pessoal e do longo percurso que fazemos pelos trilhos que traçámos (e talvez o Destino tenha alguma mãozinha nos nossos caminhos, é possível que o chão que pisamos e toda a paisagem que vemos e com que interagimos seja influenciada não só pelas nossas decisões, mas também pelo Destino, mas esta é uma questão que daria pano para mangas, ou tema para outro blog...), chegamos a esse caminho arrebatadoramente belo que se designa de Felicidade.
E já perdi aquela sensação inicial de que a máxima de Gandhi estaria a pôr este blog em risco. Não temas, meu caro e humilde blog, ainda serás útil a uma pequena parcela da sociedade durante algum tempo! :)

Estou desolado...

...e estou mesmo! Ando eu todo contente a tentar arranjar mil e uma maneiras de descrever e falar da felicidade, quando deparo com uma música (?) da autoria do famoso e douto cidadão angolano Hélder, mais conhecido como Rei do Kuduro, de seu nome "Felicidade". Ei-la:



Letra:
Á felicidade todos nós queremos
Á felicidade todos nós sentimos
Á felicidade todos nós queremos
Á felicidade todos nós sentimos
Á felicidade
Yêêê!
Felicidade!
Yê!
Felicidade!
MÁCA!


Ouvir este refrão teve, em mim, o efeito de uma explosão de duzentas bombas atómicas: reduziu a escombros toda a minha convicção neste projecto e gerou sérias mutações no genoma das minhas ideias. Porque neste pequeno excerto de 20 segundos, o homem diz tudo! Mesmo que eu não faça a mínima ideia do que significa a palavra "MÁCA!" que ele grita no fim, pressuponho, pela qualidade da poesia que antecede esse momento, que deve ser uma das mais belas palavras que se podem usar para descrever a felicidade - aquela que "todos nós queremos" e "todos nós sentimos"! YÊÊÊ!

Estou de rastos. Preciso de um pacote de lencinhos Kleenex com aroma a menta para me assoar, pois as lágrimas e o muco não páram de rolar sobre a minha imberbe (not quite...) face!

P.S.: Dêem um grammy ao homem! Não, dêem-lhe o Nobel da Literatura!

sábado, novembro 11, 2006

10

Este é o 10º post neste blog que tem pouco mais de 24 horas de vida!

Ainda agora o blog nasceu e já atingiu a magnitude das dezenas! Estou feliz! :)

Que caminho escolher? ...

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...o mais curto e sombrio, ou o mais longo e florido?

Seria fantástico se, num toque de magia, se pudesse sobrepôr à facilidade do caminho da esquerda a paisagem inebriante do caminho da direita! Talvez assim o X Incógnito almejasse e lograsse chegar ao F de Felicidade...
Até porque, por sobejas vezes, o caminho para a felicidade é feio como à esquerda e sinuoso como à direita...

De que é feito esse caminho ?

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O macadame do caminho para a felicidade é composto pelos que foram derrotados nessa demanda, e o alcatrão que o recobre é feito da indiferença que derramamos sobre eles.

Não deixem que o alcatrão seque e sufoque quem jaz por debaixo dele. Não pisem quem perdeu a perspectiva de atingir a felicidade. Construam um caminho alternativo para atingirem tão nobre e utópico fim, um caminho em que não existam derrotados espezinhados e indiferenças derramadas. Porque um dia, também nós poderemos ser brita para macadame, pedra para tritura, ossos nus subjugados à força de ventos e tempestades...

sexta-feira, novembro 10, 2006

A minha pequena felicidade já tem data marcada!

7 de Dezembro, véspera do feriado da Nossa Senhora da Conceição, pelas 17:30, na sala multiusos da Faculdade de Medicina de Lisboa (no Hospital de Santa Maria). São ainda uma data e local provisórios, acordados numa conversa informal entre mim e o editor e, posteriormente, entre mim e um membro da associação de estudantes da minha faculdade.

E o que vai acontecer nessa data? Vai ser lançado isto:
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O meu segundo livro (primeiro romance, o outro foi uma novela)! Pois é, falta ali o "de" entre Lourinho e Campos para dar um aspecto mais nobre e requintado (não tenho culpa que mo tenham posto no BI!), mas esta será, em princípio, a capa do romance!

E porque é que estou a colocar isto num blog dedicado à felicidade? A primeira razão, e a mais óbvia, porque este lançamento irá, certamente, contribuir para a minha felicidade pessoal - é sempre gratificante vermos o nosso trabalho reconhecido. Depois, porque o livro é, também ele, uma procura incessante por essa entidade que, por vezes, julgamos inexistente...

Como será amar alguém cuja única forma de comunicação é o olhar, um Ser que dispensa a fala e a mímica como armas de comunicação e que só usa os seus olhos para acariciar e bater, para amar e odiar, para falar e calar, para viver e morrer? Será possível ser-se feliz com alguém assim? Diogo acredita que sim e, cegamente, ama um olhar de uma mulher que não lhe fala e constrói a sua felicidade com base nesse olhar e nesse amor, até à altura em que começa a questionar todo o seu mundo, a interrogar-se se o caminho para a sua felicidade não estará nos braços, nas palavras, nos beijos e no olhar de outra mulher, de outra vida que lhe devolva também frases amáveis e ternas carícias! Porque por detrás de um olhar que fala, está uma felicidade que grita mas que não se faz ouvir...

No fundo, não procuramos todos nós um bocadinho de felicidade, quer seja no regaço de outrem ou no aconchego de uma solidão ponderada?
P.S.: Estão TODOS convidados para o lançamento do livro! ;)

Dizem que a lógica é uma batata...

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...mas a felicidade também o pode ser.

(batatinhas fritas, puré de batata, batatinhas a murro, snacks da matutano... Pedacinhos de felicidade impregnados em amido e calorias... Tubérculos e mais tubérculos de felicidade... Felicidade condimentada ou ao natural!)

Desabafo lamechas com o meu telemóvel

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Seguro-te com afinco, aperto-te até quase sufocares, desejo ardentemente que o teu toque soe e que, do outro lado, seja a dócil e inefável voz da felicidade a fazer-se ouvir...

Apocalipse (...)

Os sinos do armagedão repicam com o mesmo timbre daquela vozinha irritante que mora na minha cabeça e a que chamo de "pensamento". E os cavaleiros do apocalipse incitam os seus cavalos a trotar com uma cadência em tudo igual à dos passos da felicidade que julgo ouvir nos meus sonhos, mas que nunca vejo chegar ao abrir os olhos. O mundo acabou para mim.

Problema de espaço...(!)

A minha felicidade não cabe na dos outros, e a felicidade dos outros não cabe na minha. Primo, porque a minha felicidade carrega tantas mágoas acessórias, que se afigura tarefa impossível encontrar espaço para ela. Secundo, porque a minha felicidade é um vazio tão grande, que não existe ninguém que a consiga preencher.

Hoje vi a felicidade (?)

Hoje vi a felicidade. Ela estava nos olhos de um adulto por nascer, no suspiro de um jovem por inventar, no riso de uma criança por corromper. E essa constatação desenhou-me um sorriso na cara, ainda que eu não o notasse. Tomei conhecimento de que posso colher um pouco dessa felicidade num olhar que ainda não existe, num suspiro que ainda não foi dado, num riso fruto da ingenuidade e da pureza de espírito. Não sei, no entanto, como recolher algo tão frágil e intangível. Não sei se a devo transportar no morno regaço de uma noite de verão ou de amor, juntamente com a memória de incontáveis voluptuosas leviandades; não sei se devo, para esse efeito, construir um recipiente especial, despojado de todas as dúvidas, incertezas, vicissitudes e ódios, se é que podemos retirar a uma vida todas essas entidades tão tangíveis, inexoráveis e omnipresentes; não sei também se a felicidade não terá a forma de uma bela rosa rodeada de feros espinhos, que nos obrigue a um empreendimento no sentido de escolher criteriosa e minuciosamente as luvas e a tesoura de podar mais indicadas para que a possamos arrancar a esse caótico canteiro de mágoas e angústias. Mas uma coisa é certa – eu hoje vi a felicidade. De passagem. Num sonho ou num pesadelo, numa miragem ou num oásis. Mas não a apanhei, ela passou por mim e só largou despojos de um mundo afável e inefável traduzidos em mil e uma palavras que nunca foram proferidas, implícitos num olhar, num suspiro e num riso. Conseguirão ajudar-me a encontrar esses restos de nada, esses restos de tudo?