quinta-feira, novembro 30, 2006

O nihilismo num exemplo prático

Os poucos visitantes deste blog indagar-se-ão, certamente, acerca da natureza das minhas ausências cada vez mais longas. Eu posso satisfazer essa natural curiosidade, arguindo que tenho andado muito atarefado tanto com os estudos, como com o lançamento do livro (ver o post anterior). Contudo, há situações como aquela que me foi comunicada hoje que colocam em mim uma dúvida existencial, ou mesmo metafísica: valerá a pena lutarmos pela felicidade?
Contexto: aula sobre Lupus Eritematoso Sistémico. Uma doença dramática, cujos sintomas podem ser praticamente inexistentes (um rash cutâneo discóide ou malar, ou uma fadiga que parece não se dissipar) ou muito graves (trombocitopénias - diminuição do número de plaquetas - gravíssimas, com acidentes hemorrágicos extensos, devido à existência de anticorpos circulantes que atacam o DNA do próprio corpo - é esta presença de anticorpos que caracteriza, no fundo, a doença).
História: Uma jovem de 22 anos. Pouco mais velha do que eu, portanto, com toda uma vida pela frente. Talvez estivesse a concluir um curso superior. Talvez estivesse a iniciar a sua vida profissional. Talvez tivesse já um relacionamento estável. Talvez estivesse já no auge da sua felicidade ou, alternativamente, talvez a estivesse a atingir paulatinamente. Ou talvez não tivesse nada disso e mantivesse todas as perspectivas de vida em aberto, como se fosse uma flor à espera de despontar para a vida em todo o seu esplendor, espalhando os seus grãos de felicidade ao sabor do vento como se de pólen se tratassem.
Era aparentemente saudável, exceptuando alguma tendência para infecções e para a ocorrência de hemorragias que não estancavam facilmente, quando se cortava acidentalmente. Nada de sério. Certo dia, ao se dirigir à casa de uma amiga, pôs-se a brincar com o gatinho bebé que também lá vivia. Os gatinhos bebés, de três meses ou pouco mais, são criaturas que têm tanto de fofo como de irrequieto e selvagem, pelo que não foi de estranhar que, a certa altura, ele se tenha lembrado de dar uma impetuosa dentada àquela rapariga visitante. O local que recebeu a mordedura sangrou, e essa ferida demorou a estancar, mas parecia ter ficado tudo bem.
Dias depois, ela começou a ter febre elevada e a sentir um mau estar geral. Dirigiu-se ao hospital, fizeram-lhe análises e detectaram-lhe uma pancitopénia (diminuição do número de todos os tipos celulares sanguíneos) acentuada. Alarmados, internaram a rapariga e medicaram-na com antibióticos, aparentemente, adequados. Mas o organismo reagiu mal. A rapariga começou a apresentar um rash cutâneo por todo o corpo, a ter problemas renais e cardíacos, bem como um quadro neurológico que apontava para uma psicose de instalação súbita. Análises mais detalhadas não enganaram - ela tinha um Lupus Eritematoso Sistémico que entrara em actividade concomitantemente a uma infecção. Situação grave, muito grave.
Só na autópsia souberam que infecção era - no local da mordidela do gato, surgira um quisto formado por bactérias da espécie Pasteurella multocida, microrganismos da flora comensal do gato que, normalmente, não atacam um ser humano caso ele seja imunocompetente. Mas esta jovem teve o azar de desenvolver Lupus activo ao mesmo tempo que recebeu a bactéria...
22 anos. Toda uma vida pela frente. E morreu assim, por causa da dentada brincalhona e inocente de um gatinho bebé. Valeu-lhe de muito começar a construir a sua felicidade!
Sabem que mais?:
A vida é injusta. A vida é uma merda.