quinta-feira, novembro 16, 2006

Hoje havia seminário de ...

Hoje havia seminário de... qualquer coisa. Já não sei a quantas ando. Isto é mau, e já estou mesmo a ver o filme: a uma semana do exame, desato a estudar como se não houvesse amanhã e fico, uma vez mais, com a matéria colada a cuspo e prontinha a ser debitada, mediante um discurso entrecortado e receoso, no exame oral. E provavelmente serei aprovado, com uma nota no limiar da positiva.
Hoje havia seminário de... qualquer coisa. Talvez nunca venha a saber sobre que matéria incidiu este seminário a que me baldei, pois terei certamente vergonha de chegar ao pé de um colega meu e de lhe colocar esta pergunta, com um ar inocente: "desculpa, voltei a faltar ao seminário, foi sobre o quê mesmo?"
Hoje havia seminário de... qualquer coisa. E estive quase para ir assistir. Só que, ao entrar no hall que precede o anfiteatro de Medicina I, onde os seminários do meu grupo têm lugar, constatei que havia um pequeno ajuntamento de colegas meus próximo da secretária onde costuma estar aquela folhinha na qual é suposto registarmos a nossa presença através de uma rubrica. Acerquei-me, até porque um ajuntamento gera sempre curiosidade. E lá estava ela, a folhinha mágica. Um pensamento comodista bateu à porta do meu consciente. Deixei-o entrar. Ele trouxe a imagem de um merecido descanso após uma manhã chata na enfermaria, decorada com biscoitos, uma televisão e um computador. Eu fiquei enfeitiçado, e tudo o que teria que fazer para alcançar tal paraíso de marasmo era assinar o meu nome e pirar-me dali para fora. E foi isso mesmo que fiz, com um sorriso malicioso estampado na minha face, como se fosse um miúdo que acabara de descobrir a doce sensação de cometer um pequeno e inofensivo delito e de sair dele impune e, acima de tudo, feliz.
Hoje havia seminário de... qualquer coisa. Mas hoje, eu fui o miúdo crescido que assinou a folha de presenças e se foi embora com um sorriso na cara, como se tivesse acabado de roubar um chupa-chupa ou uma saqueta de cromos da Panini, e como se isso me tivesse feito muito feliz...
...o problema é que, muitas vezes, esse sorriso de felicidade desvanece-se quando se constata que se roubou aquele sabor de chupa-chupa que se detesta, ou que todos os cromos daquela saqueta desviada são repetidos...