terça-feira, março 31, 2009

Londres 2008 - 3º dia


O último dia em Londres chegou, enfim, trazendo consigo um sentimento de saudade e uma sensação de que havia ainda muito para ver. Tendo em conta que só nos iriam buscar por volta do meio-dia, ainda tínhamos uma manhã por nossa conta para ver um último local de interesse. Que escolher?

A Torre de Londres estava fora de questão porque só abria às 10h e a sua visita, segundo o site, demoraria entre uma hora e hora e meia, em média. O British Museum estava demasiado afastado. O centro de Londres, aquela zona das grandes lojas e armazéns, também implicava longos minutos de caminho no tube. Tendo em conta que as sardinhas da véspera não tinham assentado muito bem à minha mãe, propus uma ida ao Tate Modern, uma galeria de arte moderna situada entre os bairros de Southwark e Lambeth, com uma privilegiada localização junto ao rio e que, segundo as placas de indicação, estaria a menos de um quarto de hora a pé. Além do mais, era uma opção gratuita!


Acontece que as distâncias devem ter sido medidas por uma pessoa de passo lépido, pois demorámos quase meia-hora a alcançar o Tate Modern. Felizmente foi um passeio muito agradável, com o rio (quase) sempre a nosso lado. Pelo caminho, a Catedral de S. Paulo, várias pontes sobre o Tamisa - incluindo a famosa ponte pedonal Millennium Bridge, onde se encontravam dezenas de pessoas e muitas câmaras, e sobre a qual pairava um helicóptero, num grande aparato para a gravação de um filme - e o teatro Shakespeare's Globe foram sendo descortinados.

Em relação ao Tate Modern, recordo-me: da sua arquitectura sóbria (eu diria mesmo feia); de uma gigantesca racha no piso térreo (uma suposta obra de arte de uma artista colombiana); de uma sala dedicada ao realismo onde pontificavam belos quadros de Chagall, Meredith Frampton e outros; de um enorme salão com quadros surrealistas e pós-surrealistas, onde se destacavam as obras de Miró (artista que abomino completamente), Picasso (que também não aprecio muito) e um ou outro quadro que me chamou a atenção, nomeadamente um de Masson, um de Edward Wadsworth e outro de Paul Nash.


Infelizmente, a minha mãe sentiu-se indisposta, pelo que tivemos que interromper a visita e regressar, em passo rápido, ao hotel. Lá em baixo, o motorista aguardava-nos num luxuoso BMW. Fizemo-lo esperar, já que a minha mãe tardava em se recompor. Felizmente tudo correu pelo melhor e lá nos pusemos a andar em direcção ao aeroporto. Pelo caminho, houve tempo para reparar numa curiosa estrutura na margem sul do Tamisa, de frente para o Battersea Park, que não tardei em identificar como a fábrica abandonada que aparece na capa do álbum Animals, dos Pink Floyd. Descobri mais tarde que se trata da Battersea Factory, um edifício há muito abandonado.


E assim terminou uma fantástica viagem por Londres. Por culpa da sua orografia (quase completamente plana) e das reconstruções levadas a cabo após a 2ª Guerra Mundial, não é uma cidade muito pitoresca como, por exemplo, a nossa Lisboa. No entanto, é uma cidade que fervilha com vida, onde há muito para ver e para viver. Gostaria de regressar um dia, pois houve várias coisas que ficaram por fazer:

1 - Uma visita à Torre de Londres
2 - Uma visita ao British Museum (gratuito e, segundo me disseram, fantástico)
3 - Uma visita a Greenwich
4 - Um passeio na zona do Soho, das ruas comerciais e dos grandes armazéns (Harrod's, Selfridges,...)
5 - Um passeio num dos grandes jardins (Hyde Park, St James's, Park)
6 - Ver o musical dos Queen no Dominion Theatre
7 - Passar uma noite num pub ou noutro espaço nocturno tranquilo e típico
8 - Equacionar uma visita ao Madame Tussaud's
9 - Com sorte, ver um render da guarda no Buckingham Palace
10 - Com sorte, assistir a um jogo de futebol da Premiership.

É um destino interessante... Quem sabe a repetir, daqui a uns anos!

Londres 2008 - 2º dia



O sábado começou mais cinzento que o dia da véspera. Ainda assim, as temperaturas mantiveram-se dentro de valores bastante aceitáveis, pelo que acabou por ser um dia relativamente aprazível.

Por volta das 9h30, a simpática senhora que nos havia recebido na véspera com o intuito de explicar o propósito da nossa viagem e de nos dar as boas-vindas já se encontrava no átrio do hotel, juntamente com os outros vencedores do concurso - um casal sueco e um tipo escocês. Fomos conduzidos ao bairro vizinho de Lewisham, também na margem sul do Tamisa, onde se situavam os estúdios. Lá dentro, fomos recebidos por uma equipa de simpáticos técnicos de imagem e som, bem como por um pacato gigante de quase dois metros de altura, completamente caracterizado na pele de um feroz guerreiro espartano. Uma mesa com café à inglesa (ou seja, fraquinho) e bolinhos também nos aguardava. Em suma, um ambiente fantástico!

Ninguém quis tomar a dianteira quando chegou a hora de combater o enorme guerreiro. A minha mãe, que era das mais relutantes, foi incentivada para tomar a inicativa e não se fez rogada, tendo sido a mais aguerrida das combatentes nessa fantástica manhã! Um momento a recordar!

Retornámos ao hotel por volta das 11h30, pelo que teríamos um longo dia à nossa frente. Começara entretanto a cair uma chuva miudinha, pelo que decidimos almoçar na zona de Southwark. Passeámos numas galerias comerciais próximas do hotel e, poucos minutos depois, dirigimo-nos para o Borough Market que serviu, uma vez mais, de refúgio.

Depois de almoçarmos no mercado, comprámos um passe diário para metro e autocarro e, como primeiro destino, escolhemos a zona de Westminster, para observarmos de perto locais imprescindíveis como o Big Ben, as Casas do Parlamento, a Abadia de Westminster, a Igreja de St. Margaret e a residência oficial do Primeiro Ministro (na altura, o senhor Gordon Brown). Como bónus, vimos um casal de corvos num jardim onde se podem admirar estátuas de figuras famosas da história britânica e mundial, exemplo da de Nelson Mandela.

Nesta altura, a chuva intensificou-se. Foi aí que a minha mãe teve uma ideia brilhante - aproveitarmos o bilhete de transportes para nos metermos num autocarro double-decker, de forma a fazermos uma viagem turística pelo centro histórico e comercial da cidade, protegidos das agruras da chuva e do bulício caótico que caracteriza a zona central da capital do Reino Unido.

Na paragem que se encontra perto do n.º8 de Downing Street, tomámos um autocarro que nos conduziu pela Trafalgar Square, onde uma manifestação quase retirou protagonismo à imponente Nelson's Column e à National Gallery.

Seguimos depois para Piccadilly Circus, a Times Square londrina. Daí, percorremos a longa, comercial e bela Regent's Street, apinhada de gente ao longo de todo o seu percurso, notando-se uma maior concentração de pessoas no seu cruzamento com a Oxford Street. Um quadro digno de registo.

O autocarro parou no bairro de Camden Town, um nome que eu já tinha ouvido mas que não conseguia associar a nada em concreto. Mas assim que saí do autocarro e entrei numa ampla loja de artigos usados, apercebi-me da sua natureza - é o bairro alternativo de Londres. Punks, gays, goths, emos, nerds e pessoas que não pertencem a nenhuma tribo urbana imiscuem-se numa perfeita harmonia por entre lojas de produtos alternativos, tatuagens, piercings, souvenirs, vinys e roupa em segunda mão, todas elas conscientes de que são peças fundamentais da paisagem urbana que caracteriza o bairro. Um verdadeiro estímulo para os sentidos!

Depois de ter entrado nalgumas lojas de Camden Town, onde comprei algumas recordações, incluindo uma T-Shirt azul-escura com a frase "I Love London" (que só usei por uma ou duas ocasiões), e de ter passeado na zona do Canal, decidimos apanhar outro autocarro, desta feita com o destino de Notting Hill. Esse nome, que evocava um filme protagonizado por Hugh Grant, trazia-me à memória mansões vitorianas e uma população multi-étnica, pelo que me soou bem. Infelizmente, o autocarro desenhou um percurso em semicírculo por bairros periféricos desinteressantes antes de chegar a uma rua de Notting Hill onde também não havia nada para ver.

Olhei para o mapa de Londres que havia conseguido obter no hotel, no afã de tentar localizar um local de referência próximo. Constatei que estávamos relativamente perto do Museu de História Natural, um edifício majestoso junto ao qual tínhamos passado no caminho aeroporto-hotel. Ou seja, o centro de Londres ainda era longe dali...

Foi então que reparei numa pequena rua no canto do mapa, a duas estações de metro de distância dali: "Garden Lodge". Os meus olhos brilharam: era a rua onde se localizava a casa em que Freddie Mercury, vocalista dos Queen e um dos meus ídolos, passou os seus últimos anos de vida, acabando por aí falecer vítima de SIDA. Não podia deixar passar uma oportunidade única de visitar um local tão simbólico como esse - ainda para mais, a chuva já havia cessado há umas horas, pelo que um pequeno passeio ao ar livre era exequível.


Chegámos rapidamente a Garden Lodge, uma rua pacata na zona de Earl's Court. Um sentimento misto de nostalgia e revolta povoou-me. Por um lado, senti que Freddie tinha passado ali momentos de felicidade; por outro, imaginei a angústia e a dor dos seus últimos anos de vida. Também vivi a alegria de me sentir privilegiado por poder estar naquele local versus a tristeza por constatar que o mesmo foi esquecido: as mensagens de apoio que os fãs de Freddie Mercury haviam escrito nas paredes da casa tinham sido apagadas. Não havia nem uma placa alusiva à memória do vocalista dos Queen. Nada. Um vazio. Uma frieza em tons de ocre.

O mais insólito foi o facto de termos presenciado um assalto a poucos metros da casa do Freddie - um indivíduo na casa dos 60 anos foi empurrado por um ciclista que passou a alta velocidade e lhe roubou uma mala. A polícia chegou em dois minutos, tempo suficiente para nos afastarmos do local e nos dirigirmos para o metro mais próximo. Parámos ainda uma hora num cyber-café antes de voltarmos para o Hilton.

Jantámos portuguese sardines (sardinhas enlatadas com molho de tomate) compradas no Marks & Spencer que se achava em frente ao hotel. A noite estava agradável, pelo que decidimos gastar os últimos cartuchos do bilhete de transporte num autocarro que nos levasse a atravessar a Tower Bridge em direcção à Torre de Londres.

Fiquei muito triste por não ter tido oportunidade de visitar a Torre de Londres. É um monumento magnífico, Património Mundial da Humanidade, uma autêntica cidadela amuralhada e apalaçada que respira história por todos os poros. Nem sequer fiquei com uma fotografia decente!

No regresso, a chuva voltou em força. Como não tínhamos guarda-chuva connosco, tivemos que apanhar uma molha valente no tabuleiro da Tower Bridge enquanto esperávamos que passasse um autocarro que nos conduzisse de volta ao hotel. E foi assim que terminou o nosso único dia (quase) inteiramente dedicado ao passeio!

Londres 2008 - 1º dia

Nunca tinha feito uma viagem de avião. Não porque tivesse medo ou porque nunca dispusesse de tempo para tal, mas sim porque o vil metal a que corriqueiramente chamamos "dinheiro" nunca permitiu que eu embarcasse em tais veleidades.


Como tal, não enjeitei a possibilidade de participar num concurso à minha medida, que consistia em escrever um final alternativo para o filme "300" num máximo de duzentas e cinquenta palavras. O prémio era uma viagem a Londres para duas pessoas (incluindo transporte de e para o aeroporto e alojamento com pequeno-almoço no Hilton, no bairro de Southwark) e a possibilidade de participar num mini-evento num estúdio de televisão, em que a tecnologia green screen iria ser utilizada de forma a simular um combate entre mim e um guerreiro espartano. No final, teria direito a um DVD com as imagens desse épico combate. Nice!


Tive a felicidade de ganhar o prémio. Fiquei a saber que iria a Londres em Março de 2008. Chegaria à capital inglesa ao início da tarde de sexta-feira. A manhã de sábado seria dedicada à actividade no estúdio, ficando a tarde desse dia e a manhã de domingo por nossa conta. A minha mãe acompanhou-me nesta viagem.


À chegada, uma surpresa - o famoso clima londrino concedera-nos uma trégua, trazendo-nos sol e uma amena temperatura na casa dos doze graus. No aeroporto, não deixámos de reparar num enorme aparato policial: viam-se polícias das forças especiais a fazer rondas, de metralhadora na mão, em vários recantos do edifício, bem como na rua!


Fomos recebidos por um motorista impecavelmente vestido, que nos conduziu num Mercedes da classe C até ao nosso destino. Pelo caminho, aproveitámos para observar e fotografar alguns dos monumentos e locais mais emblemáticos como o Museu de História Natural, o Hyde Park e o Wellington Arch, o Palácio de Buckingham (que não voltaríamos a visitar, já que o considerámos demasiado austero), St. James' Park, o Big Ben e as Casas do Parlamento, o Tamisa, a London Eye, entre outros.


Não tardou muito até chegarmos ao hotel, um prédio recente e luxuoso localizado na margem sul do Tamisa, pertinho da Câmara Municipal e da Tower Bridge, numa área de modernos edifícios em que o vidro dominava, em contraste com a tijoleira que é característica de grande parte das construções da Londres típica.


Achámos por bem deixar a viagem aos principais monumentos e locais para a tarde seguinte, já que não compensava comprar bilhetes de transportes para esse dia - além de caros, já não havia assim tantas horas de sol para aproveitarmos...


Fomos então explorar a nossa zona. Depois de deitarmos um olho ao belo edifício da Câmara Municipal, encaminhámo-nos na direcção oposta. A minha mãe tinha reparado num mercado curioso durante a viagem de automóvel que havíamos acabado de fazer. Descobrimos que se tratava do Borough Market, um dos mais típicos e antigos mercados do Reino Unido, onde se pode encontrar de tudo à venda, desde os mais requintados chocolates belgas até aos peixes mais estranhos, passando por uma enorme variedade de carnes, enchidos, bolos (até pastéis de nata!) e coisas realmente insólitas, de aspecto duvidoso e nome impronunciável. A sua localização, debaixo de um viaduto de comboio, espalhando-se por cantos obscuros e labirínticos, contribui também para o seu enorme charme e para aquela ambiência castiça. Deu gosto perder perto de uma hora no mercado!


Mas como o dia estava bonito, continuámos o passeio por essa zona. Visitámos a pequena e bonita Catedral de Southwark e encaminhámo-nos para o rio, onde encontrámos a réplica do Golden Hinde, o colorido galeão que Sir Francis Drake utilizou na sua viagem de circumnavegação entre 1577 e 1580. Pudemos também observar, do outro lado do rio, a imponente cúpula da Catedral de St. James, bem como alguns arranha-céus do distrito financeiro, incluindo o famoso "pepino", que se destacavam dos restantes edifícios.


Como já não havia muito mais tempo de sol pela frente, fiz a sugestão de atravessar o rio pela London Bridge. Dessa forma, poderíamos obter uma boa panorâmica para a belíssima Tower Bridge e aceder a um percurso pedestre junto ao Tamisa onde até se encontravam algumas geocaches!


Das duas caches que tentámos encontrar, só lográmos deitar a mão à que se escondia perto da igreja de St Magnus the Martyr. Entretanto começou a escurecer, pelo que decidimos regressar ao hotel, até porque o passeio pedestre se revelou pouco interessante, já que não dispunha de quaisquer árvores ou espaços de ócio - apenas cimento, betão e alguns transeuntes de aspecto duvidoso a passar de um lado para o outro.


Jantámos no McDonalds mais próximo, ao pé do Guy's Hospital. Foi a primeira má experiência com a péssima restauração que é característica de Londres. Não consigo compreender como é que uma nação com séculos de história foi incapaz de desenvolver uma gastronomia própria, tendo-se visto forçada a adoptar as gastronomias de todos os povos que acolheu ao longo dos anos - o que, tendo em consideração o facto de ser a cidade mais cosmopolita da Europa, significa uma miríade de restaurantes com pratos exóticos e, regra geral, a preços proibitivos! Felizmente tínhamos comido grandes e deliciosos brownies de chocolate no Borough Market e num dos inúmeros Starbucks...

À noite, depois de descansarmos um pouco no nosso quarto de hotel, descemos até à proximidade da Câmara Municipal e tirámos umas fotografias perto do rio. Instalara-se um frio desagradável a prometer um sábado verdadeiramente londrino, pelo que retornámos rapidamente ao quarto. No dia seguinte haveria mais.




terça-feira, março 10, 2009

Aquarela

Uma música pungente, carregada de simplicidade e sensibilidade. Brilhante.