terça-feira, março 31, 2009

Londres 2008 - 2º dia



O sábado começou mais cinzento que o dia da véspera. Ainda assim, as temperaturas mantiveram-se dentro de valores bastante aceitáveis, pelo que acabou por ser um dia relativamente aprazível.

Por volta das 9h30, a simpática senhora que nos havia recebido na véspera com o intuito de explicar o propósito da nossa viagem e de nos dar as boas-vindas já se encontrava no átrio do hotel, juntamente com os outros vencedores do concurso - um casal sueco e um tipo escocês. Fomos conduzidos ao bairro vizinho de Lewisham, também na margem sul do Tamisa, onde se situavam os estúdios. Lá dentro, fomos recebidos por uma equipa de simpáticos técnicos de imagem e som, bem como por um pacato gigante de quase dois metros de altura, completamente caracterizado na pele de um feroz guerreiro espartano. Uma mesa com café à inglesa (ou seja, fraquinho) e bolinhos também nos aguardava. Em suma, um ambiente fantástico!

Ninguém quis tomar a dianteira quando chegou a hora de combater o enorme guerreiro. A minha mãe, que era das mais relutantes, foi incentivada para tomar a inicativa e não se fez rogada, tendo sido a mais aguerrida das combatentes nessa fantástica manhã! Um momento a recordar!

Retornámos ao hotel por volta das 11h30, pelo que teríamos um longo dia à nossa frente. Começara entretanto a cair uma chuva miudinha, pelo que decidimos almoçar na zona de Southwark. Passeámos numas galerias comerciais próximas do hotel e, poucos minutos depois, dirigimo-nos para o Borough Market que serviu, uma vez mais, de refúgio.

Depois de almoçarmos no mercado, comprámos um passe diário para metro e autocarro e, como primeiro destino, escolhemos a zona de Westminster, para observarmos de perto locais imprescindíveis como o Big Ben, as Casas do Parlamento, a Abadia de Westminster, a Igreja de St. Margaret e a residência oficial do Primeiro Ministro (na altura, o senhor Gordon Brown). Como bónus, vimos um casal de corvos num jardim onde se podem admirar estátuas de figuras famosas da história britânica e mundial, exemplo da de Nelson Mandela.

Nesta altura, a chuva intensificou-se. Foi aí que a minha mãe teve uma ideia brilhante - aproveitarmos o bilhete de transportes para nos metermos num autocarro double-decker, de forma a fazermos uma viagem turística pelo centro histórico e comercial da cidade, protegidos das agruras da chuva e do bulício caótico que caracteriza a zona central da capital do Reino Unido.

Na paragem que se encontra perto do n.º8 de Downing Street, tomámos um autocarro que nos conduziu pela Trafalgar Square, onde uma manifestação quase retirou protagonismo à imponente Nelson's Column e à National Gallery.

Seguimos depois para Piccadilly Circus, a Times Square londrina. Daí, percorremos a longa, comercial e bela Regent's Street, apinhada de gente ao longo de todo o seu percurso, notando-se uma maior concentração de pessoas no seu cruzamento com a Oxford Street. Um quadro digno de registo.

O autocarro parou no bairro de Camden Town, um nome que eu já tinha ouvido mas que não conseguia associar a nada em concreto. Mas assim que saí do autocarro e entrei numa ampla loja de artigos usados, apercebi-me da sua natureza - é o bairro alternativo de Londres. Punks, gays, goths, emos, nerds e pessoas que não pertencem a nenhuma tribo urbana imiscuem-se numa perfeita harmonia por entre lojas de produtos alternativos, tatuagens, piercings, souvenirs, vinys e roupa em segunda mão, todas elas conscientes de que são peças fundamentais da paisagem urbana que caracteriza o bairro. Um verdadeiro estímulo para os sentidos!

Depois de ter entrado nalgumas lojas de Camden Town, onde comprei algumas recordações, incluindo uma T-Shirt azul-escura com a frase "I Love London" (que só usei por uma ou duas ocasiões), e de ter passeado na zona do Canal, decidimos apanhar outro autocarro, desta feita com o destino de Notting Hill. Esse nome, que evocava um filme protagonizado por Hugh Grant, trazia-me à memória mansões vitorianas e uma população multi-étnica, pelo que me soou bem. Infelizmente, o autocarro desenhou um percurso em semicírculo por bairros periféricos desinteressantes antes de chegar a uma rua de Notting Hill onde também não havia nada para ver.

Olhei para o mapa de Londres que havia conseguido obter no hotel, no afã de tentar localizar um local de referência próximo. Constatei que estávamos relativamente perto do Museu de História Natural, um edifício majestoso junto ao qual tínhamos passado no caminho aeroporto-hotel. Ou seja, o centro de Londres ainda era longe dali...

Foi então que reparei numa pequena rua no canto do mapa, a duas estações de metro de distância dali: "Garden Lodge". Os meus olhos brilharam: era a rua onde se localizava a casa em que Freddie Mercury, vocalista dos Queen e um dos meus ídolos, passou os seus últimos anos de vida, acabando por aí falecer vítima de SIDA. Não podia deixar passar uma oportunidade única de visitar um local tão simbólico como esse - ainda para mais, a chuva já havia cessado há umas horas, pelo que um pequeno passeio ao ar livre era exequível.


Chegámos rapidamente a Garden Lodge, uma rua pacata na zona de Earl's Court. Um sentimento misto de nostalgia e revolta povoou-me. Por um lado, senti que Freddie tinha passado ali momentos de felicidade; por outro, imaginei a angústia e a dor dos seus últimos anos de vida. Também vivi a alegria de me sentir privilegiado por poder estar naquele local versus a tristeza por constatar que o mesmo foi esquecido: as mensagens de apoio que os fãs de Freddie Mercury haviam escrito nas paredes da casa tinham sido apagadas. Não havia nem uma placa alusiva à memória do vocalista dos Queen. Nada. Um vazio. Uma frieza em tons de ocre.

O mais insólito foi o facto de termos presenciado um assalto a poucos metros da casa do Freddie - um indivíduo na casa dos 60 anos foi empurrado por um ciclista que passou a alta velocidade e lhe roubou uma mala. A polícia chegou em dois minutos, tempo suficiente para nos afastarmos do local e nos dirigirmos para o metro mais próximo. Parámos ainda uma hora num cyber-café antes de voltarmos para o Hilton.

Jantámos portuguese sardines (sardinhas enlatadas com molho de tomate) compradas no Marks & Spencer que se achava em frente ao hotel. A noite estava agradável, pelo que decidimos gastar os últimos cartuchos do bilhete de transporte num autocarro que nos levasse a atravessar a Tower Bridge em direcção à Torre de Londres.

Fiquei muito triste por não ter tido oportunidade de visitar a Torre de Londres. É um monumento magnífico, Património Mundial da Humanidade, uma autêntica cidadela amuralhada e apalaçada que respira história por todos os poros. Nem sequer fiquei com uma fotografia decente!

No regresso, a chuva voltou em força. Como não tínhamos guarda-chuva connosco, tivemos que apanhar uma molha valente no tabuleiro da Tower Bridge enquanto esperávamos que passasse um autocarro que nos conduzisse de volta ao hotel. E foi assim que terminou o nosso único dia (quase) inteiramente dedicado ao passeio!