sábado, janeiro 10, 2009

Um dia, alguém me disse: "tu és como uma nuvem."

Uma nuvem paira indolentemente no céu, embalada por um tranquilo zéfiro ao ritmo de uma valsa levemente sibilante que só ela percepciona. Além, ao cabo da jornada inexorável que empreende, ergue-se o horizonte numa explosão cinzenta de raios e trovões, prenúncio de morte sem ressurreição anunciada. Atrás, à distância de uma inversão de marcha e no sentido inverso ao do vento quedo, uma manhã fulva irrompe numa orgia de cor e vida, anunciando a felicidade há muito almejada, mas nunca encontrada. Para a alcançar basta querer lutar, remar contra o vento sobre um mar encapelado de dúvidas e recordações agridoces que a viagem não apagou, nem apagará. É possível encontrar energias para pelejar contra aquele rumo que conduz à tempestade, e lá atrás mora uma promessa de alegria e paz.
Acontece que a nuvem nasceu após a origem dessa visão paradísiaca, achando-se dessa forma privada da entrada no Éden, ainda que não tivesse caído na tentação de colher uma maçã envenenada - pagar pelos erros dos outros é facto imutável numa existência, até na de uma nuvem...
Na sua longa jornada, as provações foram inúmeras. Voltar atrás na expectativa de ser feliz pode implicar a vivência de incontáveis novas desditas, ou o reviver de tudo o que de mau aconteceu. Como saber se o caminho para a felicidade é seguro e fácil? Como adivinhar se implica avanços ou recuos, ou se o rumo é sempre o mesmo, cabeça erguida de frente para o futuro fugidio? Não será melhor para a nuvem tomar por garantido o destino nefasto que a aguarda, deixando-se embalar pelo zéfiro pacífico que entoa incessantemente a sua melodia inebriante? Além do mais, a estrada para a tormenta é de ouro e néctar...
Na indecisão entre o fim que a aguarda e o fim que poderia atingir, a nuvem vai pensando e ignorando o que de mágico a rodeia, mergulhando cada vez mais nos seus problemas e num nihilismo pessimista e esquecendo-se de viver. A tormenta adensa-se, o ribombar dos trovões assemelha-se ao avançar compassado de um imenso exército. Ao lado da nuvem, a felicidade espreita, Mas para a nuvem ainda há um esboço de esperança: basta abrir os olhos e as narinas, enxergar a cor da felicidade e haurir o ar fresco da vida e, de uma vez por todas, atrever-se a viver!