Condição humana.
As únicas actividades inerentemente imputáveis à nossa verdadeira natureza são comer, dormir e procriar. Tudo o demais -
- passear, jogar, coleccionar, conhecer o mundo nos seus três tempos (passado, presente e futuro) e nos seus infinitos espaços, o fulgor do dia e a orgia da noite, o pôr-do-sol e o seu nascer no dealbar de um novo dia, a brisa do mar, o rebuliço das ondas e a sua espuma a beijar a nossa pele queimada, o aroma de uma flor que insiste em desabrochar até por entre a escória, a cor do arco-íris e as cores do universo que até no sorriso de uma criança se descobrem, o fresco odor a pinho num bosque perdido onde nos encontramos com os amigos sob a sombra de um plátano, um piquenique, uma anedota, rir até se perder o fôlego, amar até se perder o fôlego, receber e entregar, beber a vida num ósculo tão cândido como o voo de um pardal -
- é acessório e, nalgumas perspectivas (tantas quantas as existências humanas), potencialmente fútil. Mas são todas essas futilidades que definem a verdadeira essência da natureza humana. Somos, portanto, uma súmula de todas aquelas frivolidades que, para nós, como seres unos e conscientes, dão o verdadeiro e único sabor ao nosso mundo e significam, em última análise, a própria vida. Porque viver como humano não significa sobreviver, mas sim descobrir no frívolo o nosso essencial.