...e feliz se fez triste!
Todas as palavras já foram encontradas. Todos os sonetos já foram escritos. Todos os sentimentos já foram deslindados. Basta procurar com afinco e, algures, no fundo de um baú poeirento ou na copa de uma frondosa árvore, encontraremos certamente algo que defina e descreva o nosso dia, a nossa vida, a nossa (in)felicidade.
O dia de hoje, por exemplo, é a cara da primeira quadra de um soneto de Manuel Alegre.
Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto;
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno Agosto.
Faça-se uma subtil cirurgia plástica a esta quadra (ou a esta cara de mais um dia) e obtenha-se assim um retrato fiel do que está a ser o 15 de Novembro de 2006:
- mude-se "madrugada" por "manhã" (porque a manhã foi clara e primaveril);
- mude-se "alegre" por "feliz" (porque o tema aqui é a felicidade e não a alegria);
- mude-se "pleno Agosto" por "Novembro" (porque estamos em Novembro).
(tudo isto porque lá fora chove. E cá dentro, no meu âmago mais amargo e íntimo, também. A cântaros. E não há nada como a chuva para encharcar vilmente uma felicidade que se quer enxuta e soalheira...)
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