domingo, novembro 12, 2006

Mahatma Gandhi

Image Hosted by ImageShack.us
Este grande líder espiritual indiano que muito admiro porque não se coibiu de lutar até à exaustão pelos seus ideiais e pelo seu povo, era portador de uma mente brilhante. De entre os seus muitos ensinamentos e máximas, há a destacar uma que está intimamente ligada ao objectivo deste blog, e a partir da qual tenciono partir para uma curta dissertação:
"Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho."
Esta frase, lida e entendida em sentido literal, parece colocar em xeque todo o ideal deste blog, questionando o seu objectivo, que é o de encontrar diversos caminhos para se atingir a felicidade, sem contudo se chegar a tocar, de forma tangível e taxativa, nela. Mas se reflectirmos um pouco no que Gandhi, na sua incomensurável sapiência, afirmou, veremos que não é bem assim...
Gandhi refere-se à felicidade como sendo o caminho. Com o artigo definido "o" antes do substantivo "caminho", parece que pretende passar a ideia de que não há mais caminhos, como se o chão que nós pisamos, a luz ao fundo do túnel e o mundo que nós vemos e em que vivemos resplandecessem e transbordassem de felicidade e não houvesse outras alternativas. Eu entendo esse "o" como revelador não da felicidade como único caminho, mas sim da felicidade como sendo a estrada certa a tomar. Ou seja, esta máxima não exclui a existência de outros caminhos, pelo que não põe de parte a possibilidade de que grande número de seres humanos ande por outros trilhos que não o da felicidade. E eu incluo-me no grupo daqueles que ainda não encontraram o caminho...
Ora bem, partindo deste pressuposto, podemos encarar o mundo de, pelo menos, três perspectivas distintas:
1ª - Uma perspectiva convergente, segundo a qual iniciamos o nosso percurso vazios de ideiais e valores. É com o evoluir dos tempos e com o nosso natural e progressivo enriquecimento cultural, afectivo, familiar, social, espiritual e empírico, que vamos tendencialmente convergindo num grande rio único que é o da Felicidade, como se as nossas vidas fossem afluentes de uma grande via fluvial que todos nós almejamos;
2ª - Uma perspectiva paralela (e talvez este não seja o termo mais feliz para a descrever), segundo a qual existem vários percursos paralelos entre si, bem como paralelos ao da Felicidade, seguindo cada um de nós um caminho distinto. Há momentos nas nossas vidas em que podemos encontrar ramais que nos levam a outros trilhos, estabelecendo cada um de nós laços mais íntimos com um determinado número de pessoas dessa maneira, e outros que nos levam ao trilho da Felicidade. Pode também acontecer que, impulsionados por uma sucessão de acontecimentos e experiências positivas acumuladas ao longo de centenas ou milhares de passos, encontremos forma de saltar para esse caminho de plenitude e felicidade;
3º - Uma perspectiva de entrecruzamentos, que pode ser explicada recorrendo à analogia de um emaranhado de fios que se cruzam e entrecruzam, que se dividem e se juntam e que em muitos pontos parecem ser um só, num aparente caos do qual ninguém se parece conseguir desenvencilhar. Nesta perspectiva, o caminho da felicidade não é único, dado que todos os fios que se cruzam são potenciais "trilhos de felicidade" - a solução está em conseguirmos assumir um fio como sendo aquele que nos pertence, aquele que construímos com afinco, amor e alegria. E aí a felicidade será mesmo o nosso caminho.
Poderá haver mais maneiras de se encarar esta questão - com algum tempo, paciência e com a preciosa ingestão de mais substâncias psicotrópicas, é provável que volte a aflorar este tema e a tentar inventar mais teorias (que, como todas as teorias, e conforme Popper afirmou, serão passíveis de serem refutadas e, acrescento eu, até mesmo enxovalhadas em praça pública - let's hope not!). Até lá, olhemos com outros olhos para esta genial máxima de Gandhi, que convém dividir em dois períodos:
"Não existe um caminho para a felicidade." - Certo. Existem tantos quantas pessoas há neste mundo.
"A felicidade é o caminho." - Certo. Através da nossa busca pessoal e do longo percurso que fazemos pelos trilhos que traçámos (e talvez o Destino tenha alguma mãozinha nos nossos caminhos, é possível que o chão que pisamos e toda a paisagem que vemos e com que interagimos seja influenciada não só pelas nossas decisões, mas também pelo Destino, mas esta é uma questão que daria pano para mangas, ou tema para outro blog...), chegamos a esse caminho arrebatadoramente belo que se designa de Felicidade.
E já perdi aquela sensação inicial de que a máxima de Gandhi estaria a pôr este blog em risco. Não temas, meu caro e humilde blog, ainda serás útil a uma pequena parcela da sociedade durante algum tempo! :)