sexta-feira, novembro 10, 2006

Hoje vi a felicidade (?)

Hoje vi a felicidade. Ela estava nos olhos de um adulto por nascer, no suspiro de um jovem por inventar, no riso de uma criança por corromper. E essa constatação desenhou-me um sorriso na cara, ainda que eu não o notasse. Tomei conhecimento de que posso colher um pouco dessa felicidade num olhar que ainda não existe, num suspiro que ainda não foi dado, num riso fruto da ingenuidade e da pureza de espírito. Não sei, no entanto, como recolher algo tão frágil e intangível. Não sei se a devo transportar no morno regaço de uma noite de verão ou de amor, juntamente com a memória de incontáveis voluptuosas leviandades; não sei se devo, para esse efeito, construir um recipiente especial, despojado de todas as dúvidas, incertezas, vicissitudes e ódios, se é que podemos retirar a uma vida todas essas entidades tão tangíveis, inexoráveis e omnipresentes; não sei também se a felicidade não terá a forma de uma bela rosa rodeada de feros espinhos, que nos obrigue a um empreendimento no sentido de escolher criteriosa e minuciosamente as luvas e a tesoura de podar mais indicadas para que a possamos arrancar a esse caótico canteiro de mágoas e angústias. Mas uma coisa é certa – eu hoje vi a felicidade. De passagem. Num sonho ou num pesadelo, numa miragem ou num oásis. Mas não a apanhei, ela passou por mim e só largou despojos de um mundo afável e inefável traduzidos em mil e uma palavras que nunca foram proferidas, implícitos num olhar, num suspiro e num riso. Conseguirão ajudar-me a encontrar esses restos de nada, esses restos de tudo?