Na alma de uma gaivota
O meu corpo é de água, o meu pensar é de espuma; neste viver de maresia, a minha caneta de ondas do mar liberta, sobre a minha folha de areia, grãos de palavras de sal. Neste existir tão preso a comos e a porquês, a ondes e a quandos, a etiquetas e a sorrisos pontuais, sonho o impossível de ser livre como aquela gaivota que paira no cião do céu, embriagada de mar e de sal, carregada de areia e de espuma, respirando água e maresia. Voa como quem dança ao sabor de um zéfiro tranquilo e bonançoso, companheiro de milhares de voos perdidos, de gritos soltos, de orações entoadas a um deus que nos transcende mas que, na candura da alma de um pássaro, é realidade tangível. Voa porque sim, sem porquês, sem para ondes, sem móbil que não seja o do livre alvedrio, com uma episódica incursão ao azul do mar para aí saciar a sua fome de peixe, a sua sede de água, a sua carência de sal.
Ao longe, sentado na rude falésia que me viu crescer, fixo os meus olhos naquela gaivota de plumagem branca no peito e plúmbea nas asas que, não tendo nenhuma marca distintiva das demais, adoptei como sendo a minha gaivota, a directa extensão da minha alma se acaso ela pudesse voar de mim para fora. Olho-a e imito-a, deleitado e hipnotizado: quando em terra, sacudo-me e coço-me como que tentando despojar-me de tudo o que é supérfluo e nocivo; quando no ar, deixo-me embalar por um desígnio que me foge, que não é meu mas que me povoa e me dá ânimo, levando-me a alcançar dimensões que a minha alma bidimensional e subjugada à impiedosa força da gravidade outrora desconhecia.
Eu, gaivota, falo ao mar numa linguagem que é só nossa. Brado ao ar num clamor que só a nós pertence. Eu, humano, nem à terra que digo ser minha consigo falar, nem o lar que afirmo ser meu sou capaz de escutar. Na minha alma, indecisões e incorrecções pululam, alastrando-se numa ímpia dança em que actuam de mãos dadas com as minhas poucas certezas, com os ínfimos pedaços de alegria. Na alma de uma gaivota, tudo é em tons de branco e azul, em matizes de tranquilidade e plenitude. Não há o remorso nem a saudade. Não há o bem nem o mal, não há o certo nem o errado. Existe apenas aquilo que deve ser feito, a indelével e incontornável marca do destino, um impulso indomável que, num guincho lépido, se concretiza pelo milagre do voo.
Queria tanto voar daqui para fora. Queria tanto penetrar na alma daquela gaivota que se ri de mim, que com o seu olhar indiferente me lança centelhas de troça pela minha condição inferior, confiante de que não percepciono a linguagem dela. Mas engana-se. De tanto a observar, de tanto lhe seguir os passos e os voos, de tanto a tentar sondar, perscrutar, compreender, saber, sinto que a conheço melhor do que a mim mesmo – como pássaro que é, uma gaivota é dona de uma constância de carácter que um ser humano não consegue manter em todos os segundos da sua azafamada e labiríntica existência. Estamos excessiva e dramaticamente agrilhoados a processos meticulosos e rotineiros, a etiquetas de que a natureza carece, a artifícios que uma gaivota desconhece. Seria tudo tão simples e despretensioso se seguíssemos o exemplo daquela ave que rasga o céu, que rasa o mar, que rata dolorosamente a nossa alma com a simplicidade e imaculabilidade da sua…
Mas eu, afincado na rocha como erva daninha que não sou, creio ter logrado descobrir o segredo para atingir tão inocente e feliz existência. Foi num dos últimos remígios que efectuei sobre o frágil dorso da minha gaivota que o desvendei. E, de tão simples que é, torna-se quase lapalisseano referi-lo – mas eu anuncio-o à mesma, porque até o mais elementar facto teve que ser comunicado e aprendido num olvidado dia da nossa existência: é só quando o nosso corpo se torna fluído como água, o nosso pensar leve como espuma, o nosso viver refrescante como a maresia e a nossa alma livre como um pássaro, que conseguimos atingir a felicidade suprema, o mais alto dos nirvanas. E só nesta jornada de fé e de perseverança consegui atingir tão almejado fim. E só quando a existência daquela liberta gaivota se imiscuiu com a minha, ou melhor, quando se tornou na minha própria existência, é que comecei verdadeiramente a capacitar-me do milagre da vida e a aprender a viver…
José Xarroco
(e nem este excerto me devolveu a felicidade; mas essa é outra história...)
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