Tédio. Cinco letras de bocejo. Conto-as de novo, entre um estrebuchar de braços e pernas e uma mirada vazia e sensaborona na direcção do relógio digital que uma esbelta delegada médica me ofertou, para me certificar de que são mesmo cinco. T-É-D-I-O. Detenho-me agora, pensando se a acentuação gráfica não deveria ser contemplada na contagem. Afinal, o acento agudo também está englobado na família dos caracteres, e merece até uma tecla própria no meu teclado negro. Bocejo novamente e abandono o intento de contemplar o "´" na minha estatística, por não encontrar fonema para o ler em voz alta. T-´-É-D-I-O é ininteligível e impronunciável. Quedo-me pelas cinco letrinhas enquanto os meus olhos vasculham febrilmente recônditos do meu quarto que a minha consciência desconhecia, na ânsia vã de perscrutar algo de inaudito. Afã inglório, o tédio chegou para ficar. Nem a perspectiva de um estudo aturado que teimo em adiar logra mitigar este aborrecimento profundo que se instalou em mim, até porque as tarefas que exigem esforço intelectual causam indigestão ao tédio. Arrotos de tédio. Flatulência de tédio. Creio até que o tédio é alérgico a si mesmo, como provam estes esternutos. Atchim.
Isto é uma merda. Tinha mais uma data de coisas para escrever, mas estou tão entediado que creio que chega de divagações por hoje. Até um mês destes.